Novela de: Walcyr Carrasco
Baseada no romance Gabriela Cravo e Canela, de Jorge Amado
Direção geral de: Mauro Mendonça Filho
Núcleo: Roberto Talma
ENTREVISTA COM O AUTOR
Confira a entrevista divulgada pela assessoria da TV:
Você, em algum momento, disse que só emendou um trabalho no outro só por se tratar de ‘Gabriela’. Isso era um sonho?
Walcyr Carrasco: Sim, sempre foi. Jorge Amado faz parte da minha formação. Li ‘Gabriela’ quando tinha uns 12 anos e reli algumas outras vezes. Era um projeto antigo e logo que acabou “Morde & Assopra” fui para Ilhéus com o Maurinho (Mauro Mendonça Filho) para conceituar a produção.
Dentro de tantas tramas – são mais de 200 personagens - o que mais lhe chama atenção na obra de Jorge Amado, ‘Gabriela, cravo e canela’?
Walcyr Carrasco: A discussão dos costumes. Gabriela vive em um momento de passagem de um mundo convencional para um mundo mais moderno. Jorge Amado assinala isso em duas histórias: Sinhazinha, com um crime de honra sendo punido; e com Gabriela, uma mulher livre, independente que tem prazer, mas não se vende. Ela representa a liberdade sexual em um momento que isso passa a ser discutido no mundo inteiro. Jorge Amado é um autor ligado ao partido comunista. A visão de mundo dele fala da opressão e é um autor que colocou a liberação sexual em primeiro plano. As histórias tiveram inspirações reais.
Acha que essa versão vai causar o rebuliço que Gabriela causou em 1975?
Walcyr Carrasco: O que é maravilhoso em novelas de época é que elas falam de estruturas morais. Hoje em dia não se discute muito a liberação feminina. Mas a questão da liberação sexual da mulher ainda é espantosa, ainda repercute. Hoje as pessoas têm outro discurso, mas no íntimo ainda continuam conservadoras. Espero que tenhamos uma boa repercussão.
SINOPSE
A terra vermelha reflete o sol escaldante do sertão nordestino. Entre as árvores retorcidas, espinhos violentos, animais indesejáveis a qualquer ser humano, o que mais mata é a sede. Seco, o clima é extremamente ingrato, infrutífero. A saliva demora a descer pela garganta rascante. As nuvens brancas não trazem sinal de água, nem uma gota. E a pele resseca e racha como o solo infértil dessa terra. É de lá que vem Gabriela (Juliana Paes). Com cheiro de cravo e cor de canela, seu corpo parece esculpido por mãos nada modestas. Traz a força da natureza no olhar e o balanço do vento no caminhar. É intima daquele lugar, mas não há mais porque cantar. A seca assola a caatinga e Gabriela precisa se retirar.
Perpassa nuvens de poeira, dias e noites marchando pelo sertão. Sem comida, sem bebida, sem acalanto. Na bagagem, um sorriso fácil de quem tem a imensa esperança de uma vida melhor. Seu canto é triste e ainda doce. Guarda na alma o seu amor pela vida. Carrega seu fardo e cuida do seu destino. Ele é seu, de mais ninguém! E assim, Gabriela abraça com coragem o intento de ser feliz. Sua árdua travessia é bem sucedida e, ao chegar a Ilhéus, conhece seu acaso, Nacib (Humberto Martins), o “moço bonito” por quem irá viver uma abrasadora paixão de encontros e desencontros tão profundos quanto o amor de um pelo outro.
Todavia, Gabriela é assim. Está com fome, come. Está com sede, bebe. Não entende porque alguém faz o que não quer. Ela respeita o querer, o do outro e o dela também. É assim, uma força da natureza, meio bicho, meio gente, meio fêmea e totalmente mulher. E o que atrai também afasta. E Nacib não sabe o que fazer com seu amor por Bié, como chama carinhosamente Gabriela.
Ele é um homem da sociedade Ilheense. Ela, uma cozinheira retirante. A flor no cabelo é só para enfeitar, mas quando ela passa, a cidade para para olhar. Ela não tem culpa, mas ele não aguenta. É tanta cobiça...! Tantos convites de coronéis. Vai que um dia ela aceita. Não pode! Vai então casar-se com Gabriela, fazer dela uma dama respeitada na sociedade. Que desencontro! O que Nacib não atina é que “certas flores são belas e perfumadas enquanto estão nos galhos, nos jardins. Levadas pros jarros, mesmo os de prata, ficam murchas e morrem”. Em outras palavras, ao prender um passarinho selvagem existe um risco iminente: um dia, quando você se distrair, ele pode ver a porta aberta e voar.
Essa história de amor se passa no começo do século XX, no interior da Bahia. Nesses tempos, moça boa era moça de família, com destino certo traçado pelo pai. E Gabriela não se enquadra na premissa. Mas é ela, alheia aos costumes da época, que provoca e põe à prova tudo quanto é sentimento humano e questionamento moral: o desejo, o amor, o preconceito, a traição, o ódio, o rancor, o perdão. Inspirada na obra de Jorge Amado, ‘Gabriela’, escrita por Walcyr Carrasco, estreia no dia 19 de junho, com direção de núcleo de Roberto Talma e direção geral de Mauro Mendonça Filho.
A HISTÓRIA DE ILHÉUS NO APOGEU DO CACAU
Mas o tempo altera o rumo das coisas, e mesmo a mais dura rocha, um dia sofre com a erosão. Os ventos trazem transformações, e com Ilhéus não será diferente. E, se é pelo mar que as tempestades costumam chegar por lá, é um navio que aporta em Ilhéus que traz a carga mais perigosa contra o conservadorismo que impera na região: Mundinho Falcão (Mateus Solano). Jovem descendente de uma forte família política em São Paulo, empreendedor milionário, chega do Rio de Janeiro com um propósito malquisto na cidade dos coronéis: o progresso.
Ganha rapidamente o posto de maior exportador de cacau da região e, tão veloz quanto sua fama, se torna o mais gigante oponente que Ramiro Bastos já teve em vida. Um ardiloso comerciante, orador nato, bonito por natureza, dono de elegância que vem de berço. E solteiro. Até as sinhazinhas já prometidas suspiram quando ele caminha com seus passos cuidadosos. A época das grandes emboscadas está por um fio com a presença galante de Mundinho. Ramiro terá que usar de outras armas para ganhar essa batalha contra a “imoralidade” trazida por esse “um” da capital. Mas não será fácil. Mundinho é um sedutor nato.O símbolo mais emblemático da luta entre o conservadorismo de Coronel Ramiro Bastos e o progresso de Mundinho Falcão é a promessa da grande obra no porto de Ilhéus. Lá, os navios encalham, o que faz com que a exportação do cacau esteja totalmente nas mãos dos governantes da Bahia, a capital hoje conhecida por Salvador. Mundinho quer ver a economia de Ilhéus livre, e Ramiro, como intendente da cidade, deve muito ao governo baiano, e se opõe veementemente contra mais essa “liberdade”. Mundinho então decide não negar seu sangue e entra de vez para política. Será “a” oposição ao forte coronelismo local. Um briga de foice, instigada ainda mais pelo nascer de seu amor por Jerusa (Luiza Valdetaro), a neta preciosa de Ramiro Bastos.
ROMEU E JULIETA DOS TEMPOS QUASE MODERNOS
Jerusa é filha de Alfredo Bastos (Bertrand Duarte), filho de Ramiro Bastos, um médico de pouca expressão, do qual o pai fez deputado; e de Conceição (Vera Zimmermann), a típica sinhazinha do cacau, altiva e orgulha. Entretanto, vem de seu avô a proteção maior. Já tem futuro pronto para Jerusa, sua joia preciosa. A neta herdeira dos Bastos já está prometida para Juvenal (Marco Pigossi), filho de Coronel Amâncio (Genézio de Barros), um de seus melhores amigos.
Saber disso é o que mais lhe aperta o peito quando conhece Mundinho e vislumbra seu destino. Os dois sabem: Mesmo que a bela Jerusa já não tivesse sua mão prometida, Mundinho Falcão, de todos os homens do mundo, seria o último que Ramiro aprovaria para sua neta predileta. Ele sabe. Ela sabe. Nasce então, um amor proibido, encontros às ocultas e muito romantismo.
TONICO BASTOS, UM IRRESISTÍVEL MAU-CARÁTER
Frequentador assíduo do Bataclan, onde tem suas preferidas, mas não deixa de olhar para todas as outras, está sempre muito sorridente, muito amigo, mas é completamente sem escrúpulos. Tonico é mais um que passa a frequentar o bar Vesúvio, de Nacib (Humberto Martins), na hora do almoço. É a oportunidade de ver Gabriela (Juliana Paes). Ela traz os quitutes que faz para Seu Nacib vender no bar. A pedido da moça é ela quem serve a freguesia, que não se sabe bem ao certo o porquê, aumentou consideravelmente depois da chegada de Gabriela à cozinha. Deve ser o sabor da comida, pensa ela.
Esse é o momento mais esperado por todos os homens da cidade. A ida e vinda de Gabriela. A retirante de curvas acentuadas deslizando por entre as cadeiras do bar, debruçando sob uma mesa e outra. É nessa hora que Tonico, quando Nacib não vê, passa a mão nas costas de Gabriela, beija o pescoço dela. Ela faz que não vê. E é ele, o próprio Tonico Bastos que põe na cabeça de Nacib que ele precisa casar com ela. Um tesouro assim, não pode ficar desfilando na cidade sozinha. Há de se tê-la em casa, sob julgo do casamento, só para Nacib, sem deixar Gabriela para mais ninguém.
“Precisa, não. Tá bom como tá. Precisa casá, não, seu Nacib”, a frase de Gabriela em resposta ao pedido de casamento é taxativa. Não precisava. Mas Nacib quis. Ouviu Tonico e seus ciúmes.
O amigo de Nacib, então, torna-se o padrinho do casório E é assim que Tonico consegue se deitar na cama dela. Ou melhor, na cama do casal. O árabe não acredita no que vê. Seu amigo e o maior amor de sua vida, juntos, na mesma cama. Empunha uma arma, quer atirar, mas não consegue. Ama sua Bié demais da conta. A moral da época manda. Precisa atirar. Mas ele não consegue. Tonico livra sua pele, mas há de ter implicação.
Nacib anula o casamento. Nessa época não podia, mas como Gabriela nem documento tinha, ele volta rapidamente a ser solteiro, comerciante e dono do bar Vesúvio.
E Gabriela volta a ser Gabriela. Sente alívio por poder voltar a sorrir sem culpa, pé no chinelo, vestido sem moda e flor no cabelo. Mas a saudade é imensa, dos dois lados. Será que vão aguentar?
SINHAZINHA, O EXEMPLO PARA A SOCIEDADE
Um dia precisa ir ao dentista e conhece Dr° Osmundo (Erik Marmo). Durante o tratamento dentário, conversam e se conhecem cada vez mais. Osmundo se encanta com a candura de Sinhazinha e não entende como pode conseguir viver ao lado de um homem tão bruto e grosseiro quanto Jesúíno. Ela, por sua vez, se apaixona perdidamente pela sensibilidade de Osmundo. Vivem, então, um romance perigoso, cheio de emoções e angústias. Os poucos momentos que estão juntos são os mais felizes desse mundo. Uma contradição com a vida diária de Dona Sinhazinha. O burburinho na cidade aumenta. Todos já desconfiam. Sinhazinha está mais bonita, mais mulher.
Eis que Jesuíno vê o flagrante e resolve dar fim a essa pouca vergonha. Faz o que deveria ser feito. E comete um crime que irá definitivamente dividir a cidade. Até então, todas as traições acabam assim. E o marido traído nem sequer é questionado. Continua livre e casa novamente se for de seu interesse. Mas dessa vez os tempos são outros e Osmundo é filho de gente importante na capital da Bahia. Sua rica família irá lutar pelo direito de ver atrás das grandes o grande assassino.

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